
De Recife a Nova York: judeus e cristãos novos no período HolandêsDaniela Tonello Levy
Apresentarei nesta comunicação um retrato do êxodo dos judeus do Brasil para Nova Amsterdam, e abordarei a questão da "intolerância" dos governantes calvinistas para com os 23 refugiados brasileiros recém chegados à colônia holandesa da América do Norte. Este tema faz parte das pesquisas de minha dissertação de mestrado, onde será tratado exaustivamente. Parte das fontes utilizadas foram colhidas nos arquivos da Jewish Historical Society, YIVO Institute e biblioteca pública de Nova York, setor de manuscritos. Como todos sabem, os 24 anos em que os holandeses ocuparam o nordeste do Brasil (1630-1654) foram tratados pela historiografia clássica como um período de relativa tolerância religiosa . Os judeus eram considerados importantes aliados políticos dos holandeses, e seu papel como auxiliares nas dificuldades na nova colônia não pode ser negligenciado. Foram particularmente importantes na criação de novos empreendimentos comerciais, principalmente por dominarem os idiomas - o português e o holandês, o que os favorecia nas inter-relações comerciais. Entretanto, a relação pacífica absoluta entre católicos, calvinistas e judeus é um dos mitos construídos pela historiografia, tanto holandesa, quanto portuguesa e brasileira. Houve realmente, por parte dos dirigentes da Companhia das Índias Ocidentais, um interesse em favorecer a coexistência religiosa, mas a rivalidade e a competição profissional nem sempre permitiram que católicos, protestantes e judeus convivessem em plena harmonia . A Holanda enviou um governador à colônia brasileira, Maurício de Nassau, que teve um papel fundamental nas relações com judeus. Nassau pertencia a uma geração com uma nova mentalidade, que priorizava a incipiente (?) da burguesia. Acreditava que uma relação pacífica entre os diferentes grupos religiosos só poderia trazer benefícios ao seu Estado. Nassau compreendeu também que uma atitude rígida contra judeus e católicos incentivaria as ambições de insurreição dos portugueses[1]. No início de seu governo, manteve com os judeus íntimas relações, demonstrando-lhes, em diversas ocasiões, sua extrema confiança. Percebeu que cada grupo tinha apego a sua origem, a sua língua, aos seus costumes e tradições, e que estas preferências não podiam ser apagadas por imposições políticas . Em 1642, os líderes judeus tomaram conhecimento da ordem recebida por Maurício de Nassau de retornar a Amsterdam, e lhe ofereceram uma bonificação anual, enquanto durasse seu governo, pedindo-lhe que permanecesse no Brasil. O fato dos judeus serem necessários como intérpretes e como potencial econômico fez com que os diretores da WIC os protegessem, porém, em nível popular, o anti-semitismo se manifestou durante todo o período, tanto entre os calvinistas como entre os católicos. Diversos documentos da época comprovam uma extrema animosidade contra os judeus. A hostilidade para com os judeus se revelava em atitudes cotidianas, em cartas, em crônicas. Havia queixas contra a pretensa "arrogância" dos judeus, sobre o seu controle do comércio açucareiro, e sobre a fé judaica, ostensivamente praticada. Um fato interessante a notar: a convivência entre judeus e cristãos ocorreu mais amigável entre a camada humilde da população do que entre as classes superiores. Após os portugueses terem recuperado o território dos holandeses, a Inquisição, que nunca deixou de estar presente no restante do Brasil, retoma sua força em Pernambuco. Os holandeses foram expulsos e os judeus obrigados a deixar o nordeste brasileiro. Inicia-se uma nova peregrinação, que foi árdua. Um novo exílio, após um breve interlúdio de liberdade. Segundo os documentos, consta que partiram do Brasil holandês cerca de 600 judeus, abandonando bens e negócios inacabados. O embarque em dezesseis navios foi atribulado, pois não dispunham de capacidade para acomodar todos os exilados. Após tortuosa viagem, um grupo dos brasileiros conseguiu chegar à Holanda, outros ficaram nas Guianas, Barbados e Martinica, e um pequeno grupo, de 23 pessoas, chegou a Nova Amsterdam, atual Nova York. Nova Amsterdam, no início do século XVII, era um entreposto comercial da Companhia das Índias Ocidentais, uma pequena vila. Poucos holandeses aventuravam-se em deixar o requinte (ruas pavimentadas, casas luxuosas, lareiras com ladrilhos) e a intensa vida cultural de Amsterdam (teatros, cafés, concertos) e até mesmo de Recife, para morar em uma região erma e inóspita . Durante a viagem de Recife para Nova Amsterdam os judeus tiveram de enfrentar tormentas, ataques de piratas e naufrágio. Vencidos os desafios, os 23 refugiados do Brasil aportaram na América do Norte em setembro de 1654. Faltava apenas alguns dias para o Ano Novo judaico. A primavera desse ano marcou um momento decisivo na história da colonização judaica norte americana . Entretanto, a situação dos refugiados era lastimável. A maioria deles havia perdido todos os seus bens durante a viagem, e não tinham condições financeiras para saldar a dívida da passagem, que o capitão do navio lhes impunha. Na colônia da América do Norte, os judeus foram recebidos com uma hostilidade ostensiva, pelo governador, Peter Stuyvesant, pelo xerife da cidade e pelos representantes da igreja calvinista. Impuseram-lhes todo tipo de dificuldades para impedir o seu desembarque. O governador Peter Stuyvesant[2] foi descrito por Henry Kessler como um "calvinista autoritário e anti-semita", que mantinha o controle de sua pequena colônia afastado das vistas da Companhia das Índias Ocidentais. As ações de Stuyvesant eram direcionadas pelo fanatismo religioso e não pelos interesses da Cia.. Repudiava católicos, quaquers, luteranos e judeus. Temia que a tolerância aos refugiados ameaçaria o seu poder sobre a região . Ao contrário de Maurício de Nassau, que via nos judeus aliados políticos, para Stuyvesant, os judeus eram "odiosos inimigos e blasfemadores do nome de Cristo", não eram cidadãos confiáveis, e poderiam infectar a colônia, disseminando suas ideias. O governador Stuyvesant tentou argumentar com a Companhia, contra a permanência dos judeus . Sua atitude não era coerente, pois a sociedade em formação era constituída por uma pluralidade religiosa. Os imigrantes brasileiros procuravam uma região onde pudessem se estabelecer longe das perseguições portuguesas. Rusgas e desavenças entre judeus e as autoridades locais se davam constantemente, e a diferença religiosa serviu de excelente pretexto para a discriminação social . Em uma colônia extremamente fechada em seus princípios religiosos, todos aqueles que não dividiam as mesmas crenças eram vistos com desconfiança. A população cristã passou logo a reclamar sobre a presença dos judeus no comércio, sobre o fechamento das lojas judaicas aos sábados, e inclusive sobre a participação judaica na milícia local . No Brasil judeus e calvinistas tinham interesses em comum, o que no início não se deu em Nova Amsterdam. A nova região apresentava uma sociedade com grandes disputas pela sobrevivência econômica, a exemplo das guildas monopolistas medievais. Nova Amsterdam oferecia um medievalismo que já havia morrido na Europa. Inicialmente a única liberdade econômica concedida aos judeus foi um limitado comércio dirigido para o próprio grupo brasileiro. Apesar de algumas restrições, existentes também em Amsterdam, os holandeses não tinham interesse em perder os judeus imigrantes para a Inglaterra, que era o principal rival da Holanda, e que no momento estava espalhando seu domínio no Caribe. Os diretores da Cia. nutriam uma profunda aversão contra os "infiéis judeus", mas interesses materiais pesaram mais que seus herdados preconceitos. Durante os três primeiros anos após sua chegada, os diretores da Cia. adotaram uma política em relação aos judeus que de certa maneira foi liberal. Em 1657, novas oportunidades se abriram, permitindo que os judeus do Brasil se movimentassem com mais desenvoltura no seu novo habitat. Os direitos que os judeus gradativamente adquiriram não foram concedidos voluntariamente pelos colonos holandeses, seus vizinhos em nova Amsterdam, mas foram impostos por autoridades superiores da metrópole. O suporte político recebido da Holanda não pode ser subestimado, pois os judeus de Amsterdam tinham grande influência para poder pressionar o governo holandês em favor de seus companheiros nas colônias. Mas também havia outros interesses em jogo, como por exemplo, a necessidade de encontrar novas regiões para onde judeus humildes de Amsterdam pudessem ser enviados, como agentes comerciais, com a intenção de abrir novos mercados. Como patriotas holandeses, havia aspirações de prosperidade das colônias . Os judeus do Brasil trouxeram em sua bagagem uma enorme criatividade, tanto no campo da medicina, como da literatura, linguística, ciências humanas e naturais. Essa mentalidade foi reconhecida pelos cristãos. Em uma ocasião, um grupo de rebeldes colonos que lutava contra as imposições da metrópole inglesa procurou o líder judeu Asser Levy, um dos 23 refugiados do Brasil, para aconselhar-se sobre a posição que tomariam contra a política colonial inglesa, as consequências dos Atos de Navegação[3] ao comércio colonial e a prepotência da assembléia eletiva anglo-holandesa . Com o passar dos anos, em princípios de 1660, a dificuldade de inclusão comercial e a hostilidade por parte do governo municipal fez com que a comunidade judaica passasse gradativamente a se desintegrar; muitos dos pioneiros colonos judeus deixaram Nova Amsterdam à procura de lugares mais promissores, como Caribe ou Inglaterra. Alguns retornaram à Holanda. A comunidade judaica ficou reduzida a pouco mais de 30 homens, fora mulheres e crianças . O conflito entre Inglaterra e Holanda pela supremacia marítima e pela disputa da liderança comercial envolveu as duas nações em três guerras, entre 1652 e 1674. A primeira guerra anglo-holandesa, 1652-54, afetou diretamente os judeus do Novo Mundo, contribuindo também para a derrota holandesa no Brasil e subsequente expulsão dos judeus do Recife. Na segunda guerra, em 1664, os judeus se viram envolvidos em novos conflitos, quando tropas inglesas comandadas pelo Duque de York, irmão do rei inglês, tomaram Nova Amsterdam. Toda a colônia da Nova Holanda, do sul do Fort Orange ao norte do Hudson, passou às mãos da Inglaterra. O acordo de capitulação entre holandeses e ingleses incluía garantia de liberdade de consciência a todos os habitantes . O governo inglês manteve uma política de tolerância com os judeus desde 1655. Menassés ben Israel, rabino da sinagoga de Amsterdam, negociou com Oliver Cromwell a readmissão dos judeus na Inglaterra, e essa política extendeu-se a todas as suas colônias. Entretanto, mesmo após Nova Amsterdam haver passado para o governo inglês, os judeus não alcançaram a igualdade civil almejada. A discriminação continuou, foram impedidos de ocupar cargos eletivos, participar como membros de júri e praticar sua fé publicamente. É importante ressaltar que estas restrições eram aplicadas também a católicos, luteranos e outras minorias religiosas. Somente após a guerra pela independência norte-americana, os judeus puderam alcançar sua plena cidadania. A constituição dos Estados Unidos passou a garantir os princípios de igualdade e liberdade a todos, independentemente de seu credo religioso. Quando o presidente George Washington decretou 26 de novembro como o dia de Ação de Graças, desfiles espalhados pelo país saíram em comemoração, e entre as diversas mesas de alimentos expostas havia uma com alimentos kosher. Os judeus eram não mais uma minoria tolerada, mas cidadãos norte-americanos. Essa foi a primeira vez na história em que os judeus da diáspora foram considerados iguais aos seus companheiros não judeus. Iniciou-se assim uma nova era para os judeus do Brasil na América do Norte. Toda a história dos primeiros colonizadores judeus de Nova York tem sido estudada por autores norte-americanos. O capítulo referente aos judeus brasileiros necessita ainda pesquisa mais profunda. Entretanto, podemos dizer que foram os judeus que saíram do Brasil e seus descendentes que deram os primeiros impulsos para a conquista de valores democráticos, nas então chamadas 13 colônias. Em homenagem a esses judeus pioneiros, foi erigido ao sul da ilha de Manhattan um monumento, onde todos os anos ocorre uma cerimônia pela sua memória. Gostaria de terminar com um frase de Benjamin Franklin: "Aqueles que desistem da liberdade essencial em troca da segurança, não merecem a liberdade, tampouco a segurança"
[1] Wiznitzer, Arnold. Os Judeus no Brasil Colonial. Ed. Pioneira. São Paulo,1966. [2] Kessler, Henry and Eugene Rachlis. Peter Stuyvesant and his New York. New York : Random House , 1959 [3] Instituído em 1651 por Oliver Cromwell, decretava que a partir desta data , o comércio com a Inglaterra só poderia ser feito por navios ingleses.
Salas TemáticasPor Rodrigo em 16/06/2009 - 17:14 2624 reads
|
PesquisarNavegaçãoLogin |